Woody conhecia Bob. Conhecia seus hábitos, suas manias, seu gosto pelo álcool e - por que não dizer - substâncias ilícitas. Embora não tivesse certeza de que o amigo soubesse que tinha conhecimento sobre os vícios, o louro sabia até reconhecer quando ele estava sob algum efeito ou não. E se preocupava. Por muitas vezes quis ter a coragem de falar diretamente e incentivá-lo a procurar por ajuda ou qualquer coisa do tipo, mas temia estar se intrometendo na vida de alguém que não era tão íntimo assim. Dessa forma limitava-se a respeitar a escolha dele, ainda que desaprovasse, e esperava pelo momento em que tomasse a dianteira e dissesse “Bob, eu sei que você é viciado. Mas está na hora de se cuidar, não acha?”. Até lá tudo que podia fazer era tentar ajudá-lo da melhor maneira possível, como agora em que fazia um café forte para curar a embriaguez dele.
Depois de servir o líquido em uma caneca, voltou para o sofá onde o bêbado seu amigo se encontrava e rapidamente pensou no que seus pais diriam se vissem a cena. Decerto uma dúzia de reprovações e mais outra dirigida a Dylan, contrariados com a situação. Visualizando a mãe com o semblante irritado, permitiu-se dar um breve sorriso, com saudades. Parecia fazer tanto tempo desde que estivera com a família, quando na verdade mal devia fazer seis meses. Woody também sentia que agora havia formado uma nova família, curiosamente composta pelo músico embriagado e por uma modelo amiga deles. Naquela nova cidade, naquela nova fase de sua vida, era com eles que queria estar. Essa era uma das razões pela qual não se incomodava de aturar Bob e sua bebedeira, pelo contrário, queria mais era ajudá-lo. E pensando justamente nisso foi que se sentou ao lado dele, a caneca estendida. - É melhor beber primeiro. Quando você conseguir formas as palavras direito, pode me mostrar o que quiser. - Deu de ombros.
Em silêncio esperou que ele pegasse o café e deu um sorrisinho, vitorioso, ao vê-lo tomar a caneca de sua mão. Ponto para Woody, zero para Bob. Após ele beber todo o líquido e devolver a caneca, o jovem a pôs em cima do móvel e voltou a atenção para o amigo, os olhos curiosos. Devia ser algo realmente importante para fazer com que o mais velho fosse à sua casa naquela hora da noite e naquelas condições, portanto estava ansioso para ver o que era. Mas antes que visse qualquer coisa foi tomado de surpresa pelo músico deitando a cabeça em seu colo, deliberadamente. Sem saber muito o que fazer, cruzou os braços e mirou o guardanapo nas mãos de Dylan, as sobrancelhas franzidas. - O que é isso? - Sua voz soou um pouco desconfiada. Quis perguntar se era o telefone de uma clínica de reabilitação, mas pensou que era melhor não. E em instantes esqueceu-se de tudo para somente ouvir a voz do moreno penetrando em sua mente com a canção.
Pouco a pouco seus olhos foram adquirindo um brilho notável e um sorriso começou a despontar em seus lábios. Quase impossível descrever naquele instante a sensação que irrompia em seu peito ao ouvir a canção feita para ele. Um misto de felicidade, orgulho e surpresa. Woody estava nas nuvens. Nunca esperou por uma homenagem, quanto mais de um músico brilhante como Dylan. “Hey, hey Woody Allen, I wrote you a song” ecoava em sua cabeça e o louro duvidava que fosse sair tão cedo. Além disso, não queria que saísse. Queria se lembrar para sempre e preservar a memória daquele momento na compania de Bob. Momento este que parecia até irreal. - Song to Woody. - Repetiu. - Song to Woody. E-eu nem sei o que dizer. Sério. Um simples obrigado não é o suficiente. - Então em um impulso e sem pensar muito, pousou a mão na lateral do rosto do moreno e se inclinou para depositar um beijo na testa dele. Depois fitou-o nos olhos e voltou a sorrir. - Ainda estou te devendo
“Song to Woody” não era mais uma canção à toa, ou algo escrito contra a sociedade. Song to Woody nunca foi pensada como uma homenagem, muito menos algo para impressionar. Song to Woody, na verdade, não possuía propósito algum - pelo menos não explícito. Nada que o próprio Bob conseguisse compreender de primeira. A composição fluiu solta originada por sentimentos direcionados ao amigo de personalidade excêntrica, cérebro brilhante, piadas de gosto duvidável e belos olhos azuis revoltos. O rapaz estava longe de ser igual aos demais, era alguém ímpar e repleto de um charme próprio que fazia Bob não querer parar de olhar para ele um segundo sequer. Sua obsessão particular e mais secreta, visto que absolutamente nunca reverenciava uma pessoa como andava fazendo com o garoto menor de idade; bom, em alguns países dezoito anos significava ser responsável por si mesmo, mas onde viviam ainda não. Infelizmente. Mas a diferença de idade era pouca se comparada ao que realmente aparentava.
Dylan, dono de uma alma antiga e espírito agonizante, cantarolava em oitavas graves enquanto inevitavelmente buscou pelas feições adoráveis acima do próprio rosto. Primeira vez na vida onde cantar significou também buscar aprovação subentendida. Não queria elogios, prêmios, dívidas. Não queria nada. Só gostaria de ver um sorriso nos lábios róseos ao terminar seu verso. Uma necessidade palpável em vê-lo contente, covinhas se formando nas bochechas avantajadas e pintadas de rosa. Que aliás, foram pinceladas em vermelho-vivo conforme evoluía na música. Foi inevitável desprender o riso de acordo com o término dos refrões, entregando ao mais novo uma faceta sua que talvez, ninguém conhecesse. O compositor passava longe de ser do tipo delicado ou até mesmo, educado. Tinha uma imagem forte demais para isso, além de vícios pesados e sombrios. Quem ouvisse histórias suas o definiria mais ou menos entre: leviano, irresponsável, viciado, arrogante, pretensioso. Mas de talento nato. Gritava música, fluía música, falava música.
E a música falou tudo para Woody, ou pelo menos foram as aparências quando ganhou um singelo beijo na fronte. Inexplicavelmente a pele beijada permaneceu morna por infinitos segundos, e os dedos indecisos rumaram para o montante de tecido no tórax do garoto. Preencheu o espacinho entre os dedos com a camisa dele antes de respirar fundo e rir do “Ainda estou te devendo”. Claro que ele não devia nada, absolutamente nada. Seu maior desejo era a companhia constante de Allen, o qual morava em sua mente todos os dias. Sorriu de lado perante tantos agradecimentos anteriores e deixou uma das mãos ir para cima conforme a outra se agarrou na blusa de malha fina, tomando forças para se erguer, recolhendo as pernas ainda acima do sofá. Quis somente manter os olhos em alturas iguais para tocar no rosto rosado, acariciando a lateral do mesmo devagar. Primeiro o polegar, que concedeu ao indicador, o médio, anelar e mínimo; cinco toques suaves. Cinco toques suaves dignos do pianista que sempre foi. - Você não me deve nada, Woodie. - Decretou ao observá-lo de perto e perceber um sinal pequenino, uma manchinha no canto do rosto dele. Adorável.
- Talvez, apenas talvez eu… Eu queira… Algo. Algo. - As palavras foram morrendo conforme se aproximou, e por fim a pontinha do nariz repousou numa das maçãs do rosto alheio quando o álcool e cansaço venceram suas resistências. - Você. - Confessou num sussurro embriagado para em seguida encerrar a distância entre os lábios e pôr um fim em sua agonia. A maciez e sensação morna da boca tão desejada por espalhando uma sensação cálida que veio por todo seu interior, dominando cada centímetro seu e vencendo todas as barreiras até não resistir mais e depositar certa pressão nos lábios, ao mesmo tempo onde os dígitos do instrumentista buscaram pelos fios loiros, aplicando uma suave carícia involuntária. Woody tinha um cheirinho puro, misturado à pó de café e manhã gelada. E apesar de encaixar os narizes e manter os lábios ligeiramentes abertos, o respeitou ao controlar o ímpeto de aprofundar o beijo. Toda sua ânsia deposita na mão trêmula que segurou a base do pescoço alheio e no ofego desferido antes de morder o lábio inferior dele sem machucá-lo. Corresponder ou não depende de Woody. E só dele.
Mas apenas para reforçar a ideia, não segurou a vontade de selar os lábios mais uma, duas, trêz… Infinitas vezes.
As ideias transbordavam em sua mente e ele se apressou em passar todas para o papel. Sequer se incomodou com o fato de sua letra ter se transformado em um verdadeiro garrancho devido à urgência com que escrevia. Antes o pensamento salvo no bloco de notas do que a estética sem relevância. Além do mais ninguém teria o prazer ou a má sorte de ler seu conto, pensou. Do jeito que as coisas andavam a única forma pela qual alguém poderia vir a ler uma de suas criações era através de sua obra póstuma - isso partindo do pressuposto de que alguma alma bondosa se prestaria a homenageá-lo. E assim Woody se esforçava em suas histórias, não queria que ninguém fosse ao seu túmulo reclamar do tempo perdido com a leitura ruim.
O silêncio no cômodo o ajudava a se concentrar e a melhor desenvolver a narrativa. Em instantes, já havia completado a segunda página. Sentado no chão e recostado ao sofá, Woody trabalhava em seu mundo particular, o mundo da sua imaginação, onde era livre para criar o que bem entendesse. Eram os momentos de maior satisfação pessoal do jovem, quando podia expressar suas ideias. E assim escrevia mais e mais, absorto em seus pensamentos. Um brilho fugaz emanava de seus olhos a cada linha da página preenchida e um sorrisinho se formava no canto de seus lábios. Estava tão concentrado que nada no ambiente externo o atrapalhava; o barulho dos carros na rua, os vizinhos ouvindo jazz e nem os gritos no hall do prédio. Gritos esses que pareciam de um conhecido seu, e mais, eram a pronúncia de seu nome. Confuso, ergueu o rosto e fitou a porta para em seguida se levantar e ir ver o que estava acontecendo.
Já no corredor do andar do prédio pôde ouvir de novo a gritaria e desta vez reconhecer a voz do escandaloso. A voz de Bob Dylan. Woody não fazia ideia do que o havia feito ir procurá-lo àquela hora e de modo tão peculiar, no entanto conhecendo o músico não se preocupou muito - só um pouco e pelos seus vizinhos, que certamente não iriam aprovar a visita barulhenta. Em um lampejo de pessimismo já imaginava receber alguma advertência do síndico e ser gentilmente convidado a se retirar do edifício. Ótimo, pensou. Menor de idade, escritor fracassado e sem teto. Seus pais se orgulhariam do que havia se tornado. Antes que tivesse de viver em um papelão no meio da rua se apressou em ir atrás do amigo e tentar fazê-lo se calar, porém antes que pedisse a ele para ficar de boca fechada foi inesperadamente agarrado. E sua expressão zangada se desfez para que as maçãs de seu rosto corassem.
- Eu lembro de receber entrega de pizza, mas músico bêbado é novidade. – Murmurou mais para si do que para ele. Então se deu conta de que era provável que Bob tivesse dirigido e franziu as sobrancelhas, contrariado com a ideia. Não havia nenhum bar perto de seu prédio e a menos que o outro estivesse bebendo enquanto caminhava, as ruas da cidade haviam se tornado mais perigosas com ele ao volante. – Não me diga que veio dirigindo, Bob. Você vê os noticiários? Os hospitais estão cheios de motoristas bêbados. – Brincadeiras a parte, realmente se preocupava com ele, razão pela qual continuaria a repreendê-lo, se não tivesse se arrepiado ao ter o rosto alheio pousado na curva de seu pescoço. – Deve ser a Sra. Kozlov. Ela é russa e não entende muita coisa, então tenta resolver tudo com um balde d’água. – Disse para desviar o foco de sua atenção da proximidade com o maior.
Então sem dizer mais nada se afastou e segurou a barra da camisa de Bob, guiando-o para dentro do apartamento. Fechou a porta atrás deles e encaminhou o outro para o sofá, onde o fez se sentar. Logo pegou a garrafa de bebida que ele ainda segurava e o encarou, os olhos estreitos. – Não quero nem perguntar se essa é a primeira ou a segunda garrafa. Me espere aí que vou fazer um milagre em forma de café para ajudar sua bebedeira. – Comentou, gesticulando.
- Eu vejo os noticiários, e pessoas morrem mais por… Por… Baldes d’água na cabeça. Me tira daqui, por favor. - O pedido veio em timbre ligeiramente arrastado, as palavras enfeitadas por sua embriaguez. Estar bêbado não era mais uma variável na vida de Dylan, estava mais para uma constante. Mais fácil vê-lo caído pelos cantos do que saudável e bem-humorado. A única pessoa que conseguia o manter regulado, ironicamente, era o mesmo rapaz no qual se apoiava agora. Allen era tão puro e delicado ao ponto do cantor ter medo de macular o jovem com as próprias manchas. Bom, talvez fosse tolo e o menino tivesse seus segredos, mas duvidava muito que Woody tivesse algo sujo ao ponto de manchar a imagem que possuía dele. Imagem essa que andava perturbando demais a própria mente insana. Mas isso podia ser tópico posterior, não importava no presente. Não enquanto estivesse embriagado.
Adentrou no pequeno - porém organizado - apartamento do amigo aos tropeços. Se não estivesse se segurando com firmeza e mantendo a respiração focada no cheiro de banho recém-tomado do menor, de certo que ia cair. Acabou caindo invariavelmente, mas no estofado macio. Nem mesmo conseguiu compreender o que ele falou, apenas segurou a calça do rapaz antes que ele fosse embora. Resmungou algumas coisas incompreensíveis, no entanto, deixou o colega ir em busca do que depois entendeu ser um café forte. Se manteve quase inteiramente jogado no apoio do sofá, e arrancou os próprios sapatos com dificuldade antes de jogar as pernas no móvel. Quando Allen retornou, teve as narinas contraídas pelo aroma forte da bebida que deveria ajudá-lo. Esperou o loiro sentar-se ao seu lado dando tapinhas no lugar perto, para isso voltando a sentar normalmente. - Hmm, não precisava. Sério. E-eu vim a-aqui pra te mostrar uma coisa… - Falou, mas o fracasso em arrancar o papel do bolso foi tão falho que desistiu.
- A-argh, me dá isso logo. - Arrancou a caneca de café das mãos dele para se servir, gole após gole tornou sua consciência turva agora mais clara. Tinha um motivo para estar ali, e esse motivo era a música, claro! Óbvio que ainda estava bêbado, mas ao menos conseguiu devolver o copo vazio e acenar um pedido de silêncio. O guardanapo sujo quase se esfacelou em seus dedos, porém conseguiu mantê-lo inteiro. Não teve vergonha alguma de deitar a cabeça no colo do amigo e esticar as pernas ao longo do sofá também. - Agora isso, isso é importante. - Disse apontando para o pedaço sujo de papel, e provavelmente se passava por louco. Mas assim que a voz dominou o cômodo, mostrou algum dom.
“I’m out here a thousand miles from my home, walkin’ a road other men have gone down. I’m seein’ your world of people and things, your paupers and peasants and princes and kings. Hey, hey Woody Allen, I wrote you a song ‘bout a funny ol’ world that’s a-comin’ along. Seems sick an’ it’s hungry, it’s tired an’ it’s torn, it looks like it’s a-dyin’ an’ it’s hardly been born. Hey, Woody Allen, but I know that you know all the things that I’m a-sayin’ an’ a-many times more. I’m a-singin’ you the song, but I can’t sing enough, ‘cause there’s not many men that done the things that you’ve done.”
Cantou entoando um timbre grave, sempre encarando os orbes azuis logo acima dos seus. Vez ou outra a tontura o fez pressionar as pálpebras como se estivesse passando mal, mas continuo firme. Era um esboço de canção, feita para Woody. Esperou apenas que ele não se assustasse com nada e continuou até o final, onde sorriu com o cantinho dos lábios ligeiramente erguidos. - Song to Woody parece um bom nome? - Disse, retornando a voz para algo mais entorpecido. Quando cantava a bebida o ajudava, porém agora encarando o menor e ali apoiado no colo dele, o álcool o fez hesitar e perguntar-se o porquê gostava tanto dele.
Eu só estou te livrando do trabalho que é ter de fazer mais chocolate e te protegendo do estranho que quer tocar nos seus cachinhos. Existem muitos maníacos hoje em dia, gente que corta o cabelo dos outros, sabe?
… Tá bem. Entre a libertação e a proteção existe uma parcela de ciúme.
Eu adoro seus ciúmes, nem vou me dar ao trabalho de mentir ou ocultar.

Mas não precisa ter ciúmes do que é apenas seu.
woo-dyallen replied to your post: tb quero chocolate quente
Bob está ocupado fazendo o meu chocolate. Dá para ele fazer outro não.
woo-dyallen replied to your post: me deixa tocar seus cachinhos?
… A resposta é não.
… Ciumento.

Você acha, né?
Na verdade eu tenho certeza. Bob é um cara de sorte por ter alguém tão incrível como você apaixonado por ele. De muita sorte mesmo.
